Sunday, September 03, 2006

UMA QUESTÃO DE ASSINATURA

Ainda não saíram da memória de todos as chocantes imagens veiculadas pela imprensa de cidades norte-americanas arrasadas pelo furacão Katrina, em agosto deste ano. Incômodo ver o flagelo de milhares de pessoas que, embora sejam do país mais rico do planeta terra, clamam por água, comida, abrigo, socorro. Obviamente, não cabem nessa hora considerações extremistas como as de se alegrar ao ver que, mesmo nos Estados Unidos, há fatos vivenciados diuturnamente e há séculos em países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Também não é oportuno contentar-se com a realidade partilhada pelo lado pobre do planeta, já que naquele país assinalam-se situações semelhantes. As populações atingidas exigem soluções urgentes. Ninguém quer voltar a ver calamidade igual em algum território, apesar de não se poder conter a fúria da natureza, e refletir sobre o episódio será sempre válido.


É necessário admitir, inicialmente, que todas as regiões do planeta são passíveis de se tornar alvos momentâneos de desequilíbrios naturais. Propositalmente, ou não, os humanos ocupam placas tectônicas, ilhas vulcânicas, desertos, morros, várzeas, mangues e, por isso, necessitam de harmonia com o ambiente ocupado – tanto para mantê-lo com seus aspectos naturais, como para modificá-lo, atendendo às suas necessidades e às do próprio ambiente. O que ocorre, porém, é que nem sempre isso acontece. Movido pelas razões mais diversas (seja a necessidade de um abrigo, a supremacia territorial ou promessa de um ancestral), o homem povoa a terra – esteja ou não sob sua posse – destrói florestas, bombardeia toneladas de poluentes na atmosfera ou explosivos em solo alheio, e se esquece de que ocupa um ambiente natural tão frágil como a própria existência humana.


A ocupação do planeta nem sempre atendeu às condições de poderem se perpetuar o humano e o território ocupado. Por maiores que sejam as necessidades humanas dos recursos naturais para perpetuar sua espécie, ele disso se esquece no momento de aterrar mangues, assorear rios, lançar toneladas de óleo no mar ou simplesmente atirar um papel ao chão. A ilusão de ser eterno parece ocupar apenas um espaço no imaginário humano, mas a natureza não se ilude, não se imagina, não se quer eterna. Apenas vive.


Algo sobre o que não se pode deixar de pensar é o fato de que as sociedades humanas têm buscado, nos últimos tempos, formas harmoniosas de se manter viva. É o que se percebe ao lembrar eventos como a Rio 92 e o Protocolo de Quioto. Controlar a emissão de poluentes na atmosfera e planejar um desenvolvimento sustentável deixou de ser teses de ambientalistas para se tornar questões determinantes da sobrevida na terra, mesmo porque é inegável o superaquecimento das calotas polares, o aumento dos níveis dos mares, enfim, as mudanças terrestres oriundas das ações humanas. A omissão de líderes de alguns países para a questão pode ser percebida, hoje, não só pela ausência de uma assinatura em um documento, mas, sobretudo nos efeitos deletérios registrados por retinas atônitas da humanidade e pelas câmeras em fatos como a recente destruição provocada pelo furacão.

Não pode, portanto, haver dúvidas sobre a importância da redução dos níveis de poluentes na atmosfera terrestre. Não se pode entregar o destino de populações a governantes comprometidos apenas com a supremacia territorial, econômica, bélica de um país. Do contrário, teremos bem mais motivos para ficar estarrecidos, diante de furacões, tsunamis, terremotos e de muitas mortes, pois a natureza não admite a intolerância de seus ocupantes.

Daniel Souza (Professor de Língua Portuguesa e Literaturas Afins)

3 Comments:

Blogger Israel Ozanam said...

Corro o risco de estar sendo sintético demais atribuindo grande parte da culpa de mais esse problema ao sistema capitalista. Mas, se observarmos bem, esse modelo econômico converge para um ponto ecologicamente insustentável. Por exemplo, vamos pensar na China de hoje. Digamos que duzentos milhões de chineses vivam plenamente o consumismo e a economia produza em massa para eles com toda a degradação ambiental inerente à industrialização. Como ficará o mundo quando supostamente seiscentos milhões de chineses estiverem na mesma situação?

2:50 PM  
Blogger Josylene said...

Parabéns!!!!Que maravilha de texto.Não sabia que o mestre Daniel escrevia tão bem assim.Meus parabéns,que texto gostoso de ler...é bastante atual.
Amei sua escolha Dio,agora só fica faltando o seu.Na próxima publicação vc coloca o seu.
E ia esquecendo...tá lindo o blog.
Beijos lindo.

6:44 PM  
Blogger eurico said...

Ecos de uma pessoa chamada Aderval Farias? Hombre, que profunda e angustiada visão do planeta! Lembra-me o Apelo aos Vivos do Roger Garaudy.
Ave, Mestre!

5:54 PM  

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