Thursday, September 07, 2006

INEQUAÇÕES
Sou matemático de cabeça para baixo:
as inequações, marcas de minha impotência;
os números, teimosia de Infinitude...
postergando o meu capturar definitivo.
Sou matemático de uma agônica geometria:
as linhas, tortas por um contorno inacabado;
as esferas, derretidas na frouxidão do tempo
(talvez, doidamente mais lânguidas que os relógios-tempo de Dali);
os trapézios, trapalhadas trôpegas
de um discurso falido.
(DiAfonso)
CAOSAGONIA: UM ACORDE COM NINGUÉM


Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu esbravejo matilhas ofegantes, espumando
Pela Caça Fugidia que desliza espectral
Dos ombros inefáveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu estremeço legiões de demônios, temendo
Pelo Tudo Distante que emerge seminal
Dos ombros inomináveis de Deus.


Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu enlouqueço nômades errantes, viajando
Para Lugar-Nenhum que habita abismal
Os ombros intransponíveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu...
Que esbravejo por esta Caça,
Que estremeço por este Tudo,
Que enlouqueço por este Lugar-Nenhum,
Busco desbravar o labiríntico
Dessas sendas sem nomes:
Golpes golfando impotência
Diante dos ombros absurdos de Deus.



(DiAfonso)

Sunday, September 03, 2006





REGISTROS DE UMA SAUDADE INOMINÁVEL
(RE-CORTES DISSONANTES)

Como quem alberga o peso do Universo lido e revisitado durante séculos, inquieto-me com este Hiato a cindir Teu Corpo do Meu: amo Você... amo Você e estou só, guardando este Silêncio Profundo que me cega e esta Distância Infesta que me devasta. Juntos, Silêncio e Distância assemelham-se a Uivos paridos em Noites Infindas, ferindo ouvidos de Ninguém

Estou cansado... dormente. Mas o que sinto por Você – este Amor Clandestino – absorve-me, incendeia-me. Meu Corpo, então, procura-Te incansável, inconsolado. E, na circunvolução na qual se acha

A Ti se entrega
,
Contigo se deita,
Em Ti vagueia,
Entre Ti intumesce,
Para Ti foi gerado,
Por Ti geme,
Sem ti arrefece,

sob Ti descansa
,

sobre Ti desliza afogueado, como animal bravio e solto nos campos, umedecendo-Te toda... invadindo-Te toda numa chuva torrencial cuja senha é um amo-Te... felicidade contida... inaudita...

(DiAfonso)

UMA QUESTÃO DE ASSINATURA

Ainda não saíram da memória de todos as chocantes imagens veiculadas pela imprensa de cidades norte-americanas arrasadas pelo furacão Katrina, em agosto deste ano. Incômodo ver o flagelo de milhares de pessoas que, embora sejam do país mais rico do planeta terra, clamam por água, comida, abrigo, socorro. Obviamente, não cabem nessa hora considerações extremistas como as de se alegrar ao ver que, mesmo nos Estados Unidos, há fatos vivenciados diuturnamente e há séculos em países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Também não é oportuno contentar-se com a realidade partilhada pelo lado pobre do planeta, já que naquele país assinalam-se situações semelhantes. As populações atingidas exigem soluções urgentes. Ninguém quer voltar a ver calamidade igual em algum território, apesar de não se poder conter a fúria da natureza, e refletir sobre o episódio será sempre válido.


É necessário admitir, inicialmente, que todas as regiões do planeta são passíveis de se tornar alvos momentâneos de desequilíbrios naturais. Propositalmente, ou não, os humanos ocupam placas tectônicas, ilhas vulcânicas, desertos, morros, várzeas, mangues e, por isso, necessitam de harmonia com o ambiente ocupado – tanto para mantê-lo com seus aspectos naturais, como para modificá-lo, atendendo às suas necessidades e às do próprio ambiente. O que ocorre, porém, é que nem sempre isso acontece. Movido pelas razões mais diversas (seja a necessidade de um abrigo, a supremacia territorial ou promessa de um ancestral), o homem povoa a terra – esteja ou não sob sua posse – destrói florestas, bombardeia toneladas de poluentes na atmosfera ou explosivos em solo alheio, e se esquece de que ocupa um ambiente natural tão frágil como a própria existência humana.


A ocupação do planeta nem sempre atendeu às condições de poderem se perpetuar o humano e o território ocupado. Por maiores que sejam as necessidades humanas dos recursos naturais para perpetuar sua espécie, ele disso se esquece no momento de aterrar mangues, assorear rios, lançar toneladas de óleo no mar ou simplesmente atirar um papel ao chão. A ilusão de ser eterno parece ocupar apenas um espaço no imaginário humano, mas a natureza não se ilude, não se imagina, não se quer eterna. Apenas vive.


Algo sobre o que não se pode deixar de pensar é o fato de que as sociedades humanas têm buscado, nos últimos tempos, formas harmoniosas de se manter viva. É o que se percebe ao lembrar eventos como a Rio 92 e o Protocolo de Quioto. Controlar a emissão de poluentes na atmosfera e planejar um desenvolvimento sustentável deixou de ser teses de ambientalistas para se tornar questões determinantes da sobrevida na terra, mesmo porque é inegável o superaquecimento das calotas polares, o aumento dos níveis dos mares, enfim, as mudanças terrestres oriundas das ações humanas. A omissão de líderes de alguns países para a questão pode ser percebida, hoje, não só pela ausência de uma assinatura em um documento, mas, sobretudo nos efeitos deletérios registrados por retinas atônitas da humanidade e pelas câmeras em fatos como a recente destruição provocada pelo furacão.

Não pode, portanto, haver dúvidas sobre a importância da redução dos níveis de poluentes na atmosfera terrestre. Não se pode entregar o destino de populações a governantes comprometidos apenas com a supremacia territorial, econômica, bélica de um país. Do contrário, teremos bem mais motivos para ficar estarrecidos, diante de furacões, tsunamis, terremotos e de muitas mortes, pois a natureza não admite a intolerância de seus ocupantes.

Daniel Souza (Professor de Língua Portuguesa e Literaturas Afins)